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A política do “eu não vi nada” em Primavera do Leste


Redação 

A denúncia apresentada pelo ex-procurador jurídico da Câmara de Primavera do Leste contra o presidente da Casa abriu uma discussão necessária sobre gastos públicos, diárias e fiscalização. Até aí, tudo dentro do jogo democrático.

O curioso é que alguns personagens parecem surgir apenas quando o incêndio já está alto.

Durante meses, as diárias foram pagas, as viagens aconteceram e a Câmara continuou funcionando normalmente. Agora, de repente, descobriram que existe fumaça. A denúncia atinge diretamente o presidente da Câmara, mas seus reflexos respingam em toda a Casa Legislativa. Afinal, se há algo errado, seria difícil acreditar que apenas uma pessoa tinha conhecimento de tudo. Câmara Municipal não é monarquia. Ou pelo menos não deveria ser.

Outro detalhe interessante é que o ex-procurador que hoje denuncia ocupava cargo de confiança e possui relação profissional com um vereador bastante ativo nos bastidores políticos da cidade. Isso não torna a denúncia verdadeira ou falsa, mas certamente torna difícil acreditar na narrativa de que tudo aconteceu por mera coincidência.

Na política, coincidências costumam ser tão raras quanto vereador recusando diária. E enquanto isso, muitos colegas seguem praticando o tradicional esporte da política brasileira: fingir surpresa. Alguns fazem cara de espanto, outros de indignação e há até quem tente convencer a população de que não fazia ideia do que acontecia dentro da própria instituição onde trabalha diariamente.

A pergunta que fica é simples: estamos diante de uma legítima preocupação com o dinheiro público ou de mais um capítulo de uma disputa política que já vinha sendo travada nos bastidores?


Talvez a resposta apareça nos próximos dias ou talvez não. O que já ficou claro é que, quando a crise estoura, ninguém quer ser o pai da criança. Mas quando os benefícios aparecem, a fila para tirar foto costuma ser bem maior.

E assim segue a política local: onde alguns fazem denúncias, outros fazem discursos e a população tenta descobrir quem está realmente preocupado com o interesse público e quem apenas escolheu o momento certo para puxar o gatilho político.

Porque, no fim das contas, o mais impressionante não é a denúncia.





A pergunta que fica é: até quando os vereadores continuarão fingindo que nada acontece? Se há suspeitas de utilização da estrutura institucional para disputas políticas que extrapolam o debate legislativo, talvez tenha chegado a hora de a própria Câmara discutir os limites estabelecidos pelo Regimento Interno e pela Lei Orgânica. Porque, pelo visto, alguns ainda confundem mandato parlamentar com licença para transformar a instituição em extensão de suas batalhas particulares.

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